Era uma vez um Eleito Local que morava bué, bué de longe, numa terra chamada Infracção.
Nessa terra, conhecida em todo o
lado, por ser um paraíso para a bagunça, nunca ninguém era punido, pois nela
reinava a Desordem e o Caos.
Os seus habitantes, os Infractores, eram todas pessoas com
vasto curriculum em violações várias e, por esse facto, quem mais violava mais
bem visto era.
O Eleito Local, como qualquer outro Infractor havia feito o seu percurso na escola do Caos e havia sido
bem-sucedido, vivendo tranquilo e descansado.
Na sequência de uma tempestade que
assolou a Infracção por dias e dias a fio, apareceu por aquelas bandas, vindo de
uma outra terra bué, bué de longe, chamada Contra
Ordenação, um cidadão de nome Procedimento.
Tratou logo de se apresentar ao Eleito Local e
depois de uma longa conversa que mantiveram, perceberam que não se iriam dar
assim tão bem.
Existiu entre eles, assim como que
uma Incompatibilidade.
Como as relações entre o Eleito Local
e o Procedimento desta história não corriam de feição, consideraram adequado
ouvir em Referendo Local, os Infractores.
Mas para que pudessem recorrer a este
instituto, considerou o Procedimento que não seria suficiente reunir os Infractores na praça principal da terra e fazer-lhes uma pergunta qualquer à qual
responderiam de braço no ar, como pretendia o Eleito Local.
Porque pensava assim, o Procedimento
convenceu o Eleito Local a auscultar os serviços de uma entidade que funcionava
ao arrepio da bagunça e do caos que reinava na Infracção e que se chamava Comissão.
Era uma entidade que resistia
estoicamente na terra da Infracção ao Caos e à Desordem.
A pergunta elaborada pelo Eleito
Local era imperceptível e dizia mais ou menos isto:
“ Podem
os Infractores adoptar um outro tipo de conduta e mesmo assim manterem o nível de
vida e mordomias de que têm vindo a usufruir? “
Como o pedido não vinha subscrito
pelo Eleito Local, logo uma das funcionárias mais aguerridas e fiéis ao serviço
da Comissão, tratou de o devolver à Infracção para que a questão fosse
subscrita por quem de direito.
Esta solicitação da Comissão, gerou
estranheza na Infracção pois desde há muito que não se ouvia por aquelas bandas
a palavra “ direito”.
Mesmo assim, lá reformularam o pedido
à Comissão, apelidando-o de urgente porque a data do Referendo Local se
aproximava.
A questão foi então distribuída a um dos
elementos mais novos da Comissão,
que entre 3 ou 4 pacotes de bolachas que consigo partilham a secretária,
começou a afetar o seu tempo à questão.
Depois de milhentas consultas às bases
de dados, depois de centenas de anotações a lápis nos papéis de rascunho,
depois de ter acabado o stock de bolachas, que depois de reposto voltou a
esgotar e após uns breves minutos de conversa com os colegas, começou a surgir
a tão esperada resposta ao Eleito Local.
As 15 primeiras páginas da resposta
eram um verdadeiro tratado sobre a Condição Humana e só podiam ser escritas
para aqueles Requerentes.
Depois, surgiram as habituais sub
hipóteses que costuma enunciar no seu raciocínio.
Depois o tratamento concreto do
pedido e, finalmente, dezenas de conclusões.
O tempo passa.
O Eleito Local telefona e pergunta
pelo pedido.
Digam ao Infractor que a resposta chega pra
semana, alguém grita.
Finalmente, num qualquer dia ao final
do tarde o parecer é despachado.
Finalmente o parecer é remetido à Infracção.
Depois de lido e não percebido, o
Eleito Local, que entretanto havia andado em campanha junto dos demais Infractores,
resolveu não adoptar o entendimento transmitido pela Comissão.
Os dias passam em Infracção e
sucedem-se os temporais…